Minha Vida-Kung Fu, por Keith Markus

Keith Markus Moreira de Almeida



Membro Ativo da Família Moy Fat Lei do Clã Moy Jo Lei Ou, desde março de 2016.



O que representa para você o Sistema Ving Tsun? 
Um potencial para o desenvolvimento humano.
O que representa para você a Vida-Kung Fu? 
Significa viver de forma inteligente e plena, enxergando as coisas como elas se apresentam, aproveitando a potencialidade até mesmo das situações aparentemente desfavoráveis.
O que representa para você a Família-Kung Fu? 
Representa uma excelente oportunidade de crescimento, que vai além do fator sentimental. É o potencial de um constante movimento de auto-exame, de aprendermos a agir e deixar agir, de apoiar e sentir apoio. É responsabilidade e compromisso.

Uma experiência de Vida-Kung Fu de seu Si Gung que tenha sido inspiradora para você. 
Me recordo de ter ouvido uma história sobre uma das inúmeras vezes em que meu Si Gung, Júlio Camacho que morava no Rio De Janeiro mas estava em São Paulo para praticar Ving Tsun e estar com o meu Si Taai Gung Leo Imamura. Si Gung estava fazendo um trabalho de arte em um computador, nos primórdios do Corel Draw (programa de criação e edição gráfica), quando repentinamente houve uma queda de eletricidade, ocasionando a perda de todo o trabalho. Só para ilustrar: o trabalho havia sido solicitado por seu Si Fu (meu Si Taai Gung), em caráter de urgência. Mais uma coisa...a queda de energia foi ocasionada devido ao acionamento de um scanner pelo Si Taai Gung! Segundo o que me recordo de ter ouvido, Si Gung não falou nada. Reiniciou o trabalho, com o tempo ainda mais curto, e foi colocando as ideias em forma de imagens novamente. Eis que em seguida, Si Taai Gung resolve verificar o andamento do trabalho, e ao verificar que ainda encontrava-se no início, perguntou o que estava havendo, qual era o motivo do atraso, e Si Gung respondeu que tinha sido uma queda de luz. Logo, Si Taai Gung percebeu que aquilo havia acontecido quando ele mesmo ligou o scanner, e provavelmente disse "ah, foi quando eu fui usar o scanner. Vá mais rápido, o tempo é curto". Si Gung continuou trabalhando, quando repentinamente...nova queda de energia. Dessa vez, pelo que me recordo de ter ouvido, Si Taai Gung foi até o meu Si Gung e disse algo como: "Júlio, você viu que agora eu percebi o que fiz? Liguei novamente a máquina. Continue trabalhando. O tempo está mais curto agora". E Si Gung, com o tempo mais curto do que nunca, aumentou ainda mais o foco e concluiu o trabalho. Para mim, fica muito clara a grandeza de todos os envolvidos; do meu Si Taai Gung em confiar que o meu Si Gung era capaz de concluir o trabalho, mesmo sob fatores adversos, e do meu Si Gung, Júlio Camacho, em lidar com situações de potenciais frustrações e seguir fazendo o que tem que ser feito. Lidar com situações e emoções sem pemitir que elas o desviem do seu foco, e acima de tudo, apoiando-se no que a situação traz de melhor, é algo que observo e admiro em meu Si Gung.
Uma experiência de vida de seu Si Gung que tenha sido inspiradora para você. 
Na verdade, não há somente uma experiência de vida em particular de meu Si Gung que me inspire. Ao invés de falar de uma experiência de vida, prefiro falar de uma vida de experiências. Vejo o meu Si Gung como alguém que não tem medo. Sei que essa visão é romântica, mas realmente o vejo assim. Sei que ele se propôs a levar o Ving Tsun adiante no Rio de Janeiro mesmo sem sentir-se plenamente pronto para isso. Hoje, o imagino perguntando: "mas o que é estar pronto?", pergunta essa que me provoca uma reflexão -resposta: é ter coragem. Sei que não é somente isso, mas sem coragem, ninguém está pronto, por mais pronto que se esteja. Olhando a vida do meu Si Gung, vejo muita coragem. O ensinamento que tiro para mim ao pensar sobre isso, é que as maiores amarras em nossas vidas são tão fortes quanto somos frouxos. Inspiro-me na coragem do meu Si Gung, e percebo meus limites se distanciando.
Uma experiência de Vida-Kung Fu, sua com seu Si Gung.
Tudo começou no dia 04 de março de 2017, quando ficou acertado que eu seria o motorista da delegação que recepcionaria o Grão-Mestre Lee Moy Shan no Rio de Janeiro. Eu ainda não fazia a mínima ideia da importância do evento, na verdade, eu não tinha entendido nem como era o nome dele. Para mim, a "missão" era muito simples (listava mentalmente): Ir até a casa do meu Si Fu, ir até a casa do meu Si Gung, levá-los ao Núcleo Copacabana da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence (haveria uma cerimônia da Família Moy Lin Mah nesse dia), e talvez ir buscar um Grão-Mestre de Ving Tsun em algum lugar. Agora, bem mais consciente do que acontecera naquele dia, sou capaz de ser um pouco mais educado e dizer que o Grão-Mestre de Ving Tsun em questão é o meu "Si Taai Baak Gung", ou seja, Si Baak (algo como "tio mais velho" em termos Kung Fu) do meu Si Gung, Júlio Camacho. Ele foi Dai Ji (discípulo) de Si Jo Moy Yat. Como dito acima, demorei a perceber a importância do que estava por vir. Cheguei à casa do meu Si Fu, Thiago Pereira, e rumamos para a casa do Si Gung. Até ali, tudo estava conforme imaginado. Estava previsto tomarmos café, todos juntos, então passamos para pegá-lo em sua residência, no Condomínio Península (Barra da Tijuca) e fomos para o "Deli", cafeteria dentro do próprio condomínio. Estava presente também o meu Si Suk André Almeida, Diretor do Núcleo Barra. Todos se serviram, e Si Gung começou a nos sintonizar para o que estava por vir. Meu nome é Keith Markus, e em algum momento o Si Gung dirigiu a palavra a mim, perguntando: "Keith (sempre escuto algo como "Kíf"), vc sabe chegar ao porto? Eu, acusando o golpe, respondi um tímido "sei". Comecei nesse momento a ter o meu despreparo flagrado. "Então vamos", disse Si Gung. No caminho para o carro já fui tentando escanear mentalmente o caminho, e tudo que conseguia acessar era um imenso nevoeiro de ideias. Já dentro do carro, eu dirigindo, meu Si Gung ao meu lado, e meu Si Fu e meu Si Suk no banco de trás, tento sair pela saída de moradores. Mais um indício de falta de atenção. "Kíf, está saindo pelo lugar errado. Presta atenção." A partir dali, começou a ficar claro para mim que eu devia ter me preparado. Tentei não perder a compostura. "Sabe ir pelo gasômetro? Coloca o mapa no celular." Eu, tentando manter o semblante sereno, soltei mais um vacilante "sei"... "Então vamos embora. Já estamos atrasados, você sabia?". Não, eu não sabia, mas não sei o que respondi. No caminho comecei a me dar conta do que estava acontecendo. Eu estava dirigindo um carro com o maior expoente do Ving Tsun do Rio de Janeiro, meu Si Gung (Júlio Camacho), com o seu discípulo número dois (meu Si Fu, Thiago Pereira), e com o meu Si Suk que era o diretor do Núcleo Barra. Contando comigo, três gerações do Ving Tsun. Mais ainda, indo buscar o Grão-Mestre Lee Moy Shan, meu Si Taai Baak Gung. A conversa no carro prosseguia, Si Gung explicando coisas, perguntando outras, e eu, dando olhadelas desesperadas para o mapa no celular. "O futuro do Ving Tsun nas minhas mãos ", pensava eu. Não posso bater. "Estamos atrasados". Eis que o que eu temia aconteceu. Errei o caminho. E errei novamente. E novamente. E tantas outras vezes. Foi então que ouvi uma pergunta que penetrou em minha alma: "Kíf, você está entendendo o que está acontecendo aqui?" Minha máscara havia caído. Me senti nu. Todo o meu despreparo fez com que perdêssemos tempo, concentração, e colocava em risco a imagem da instituição, e até mesmo as nossas vidas. Quando finalmente consegui chegar à Zona Portuária do Rio de Janeiro, parecia que eu havia levado uma surra. Havia um misto de alívio e auto-decepção mal digerida, e por fim, para encurtar essa longa história, Si Gung chamou um táxi e levou o meu Si Taai Baak Gung para Copacabana. Daí para frente, tudo correu bem, e na volta, pude digerir melhor tudo o que havia acontecido, e pude perceber o quanto o meu Si Gung resolveu arriscar para que eu pudesse passar por essa edificante experiência Kung Fu. Ele sabia o caminho, mas permitiu que eu me perdesse para que eu tivesse a oportunidade de me recompor. Foi uma imensa experiência, percebi o quanto eu costumo ser desligado e até irresponsável com questões importantíssimas, que ouso enxergar como banais. Senti naquele dia o peso de uma grande responsabilidade, mas na volta pude perceber o quanto todos se doaram para permitir o meu desenvolvimento, em especial, meu Si Gung, Júlio Camacho.
Reflexão sobre sua relação com seu Si Gung.
Minha relação com meu Si Gung é algo que está se desenvolvendo, e meu desejo é que se estreite cada vez mais, pois a convivência com ele é sempre engrandecedora.



Keith Markus tem 40 anos, é Aluno de Primeira Geração de Mestre Thiago Pereira e de Segunda Geração de Mestre Julio Camacho e Bombeiro Militar.